08 May 2010

Acho que vou comecar a escrever sobre assuntos gerais, porque gracas a Deus a doenca esta ficando para tras, e cada vez penso menos nisso. Nao nego que toda semana tenho algo que me assusta, e fico nervoso mas aprendi a lidar com isso. Me mantenho ocupado e com uma rotina saudavel. Outras questoes estao aparecendo, coisas corriqueiras, e ate superfluas do dia a dia de uma pessoa normal, tipo: sera que vou ficar careca assim pra sempre? Ou: preciso de roupas novas... Tambem habitos ruins voltaram, como de tomar cafe em quantidades que ate o amante do Starbucks ficaria surpreso. Mas nao adianta, eu tenho direito a algum vicio, e esse e o unico realmente que posso me dar o luxo, ja que beber eu fui proibido pelos medicos.

Ah, falando de coisas novas, finalmente estou conseguindo me re-organizar. Estamos “downsizing”, ou dimuindo o padrao. Isso seria algo para se preocupar ou ficar chateado, mas eh o contrario, me sinto leve, tranquilo. Nao tenho aquele peso de compromissos e ambicoes. O alivio nao eh soh na parte financeira, afinal tudo que penso sempre eh no futuro da Julia, mas tambem o lado psicologico, pois era como se estivesse amarrado aquilo, ao passado. A um passado que foi bom enquanto durou. Hoje olho as fotos dos nossos amigos ao redor do mundo, e sei que pelo menos hoje eu nao sou mais parte disso. O mundo era pequeno antes, agora hesito em pegar aviao mesmo que seja para viagens curtas. Outrora nao imaginaria ficar longe da acao, hoje sou feliz aqui com uma vida pacata.

Como eh um recomeco, isso era necessario, ou seja, se desfazer de coisas materiais, re-organizar, comecar de novo, passo a passo e reconstruir uma vida, uma rotina. Nao eh tarefa facil, o cancer foi um puxao de tapete num momento em que eu estava galopando, no auge da carreira. Meu mundo desabou de uma forma tao rapida, que nao tive nem tempo de lamentar. Nao tive tempo sequer de fechar a porta do apartamento que deixei pra tras quando sai de ferias de Hong Kong.

Acho que muitas pessoas passam por situacoes similares, recomecos. Desde os mais radicais, catastrofes, como problemas pessoais. Sao desafios que a vida nos traz e que como sempre, aprendemos muito com eles. Meu pai acaba de se separar, e eh muito triste ver outra familia se desfazer. Ele tambem esta passando por um recomeco, e vai levar muito tempo para ele se re-organizar e entender seu novo papel e seu caminho. Pelo menos ele tem o apoio da familia, e posso dizer que tenho sido bom filho estando a disposicao sempre.

Falando nisso, eu fico me questionando se estou me esforcando o suficiente ajudar as pessoas. No fundo acho que nao. O sistema e engracado, porque ha tantas carencias e tudo e complicado. As ONGS nem sempre funcionam bem, sao mal administradas ou sao fachada para alavancar politicos. Por outro lado, as pessoas necessitadas ja partem do principio que e uma obrigacao da sociedade lhes prover o sustento, sem nunca ter tentado algo por si so. E um assunto muito polemico, porque afinal pagamos impostos para serem usados em melhorias na sociedade, em gerar meios para que todos possam ter condicoes iguais.

Falando com muitas pessoas acabo descobrindo coisas absurdas, como por exemplo os indigentes que passam frio a noite, porque nao querem ir aos abrigos da prefeitura porque la e obrigatorio tomar banho. Ou a coleta de roupas de campanhas no inverno, onde as melhores roupas sao desviadas por pessoas envolvidas na campanha para revenda ou uso pessoal.

Tenho ligado para o hospital onde me tratei me oferecendo, e ate agora nao consegui chegar a pessoa que decide sobre a rotina dos pacientes para poder agendar algo. Fico ligando e nunca retornam as ligacoes. E frustrante. Quero fazer mais, mas sempre esbarro em alguma dificuldade e ai volto a minha rotina. Vou tentar ser mais enfatico, e realmente me esforcar para ajudar. E incrivel, mas a ajuda e tao complicada quanto outra atividade, requer foco, esforco e perseveranca.

Bom, era isso... acho que meu blog eh minha terapia.... ja falei isso ne?

Beijos a todos. Be good, do good.

04 May 2010

Fiz mais uma bateria de exames esse mes, e gracas a Deus esta tudo bem novamente. Contagem regressiva segue firme e forte. Apesar de nao ser uma conta exata, os medicos colocaram como junho sendo o primeiro objetivo a ser cumprido pois completara um ano do tratamento. Eu nao consigo evitar em ver esse mes como uma linha de chegada, embora nao signifique que os controles acabarao, ou que possa relaxar. Acho que relaxar mesmo sera impossivel, sempre me acompanhara por toda a vida.

As pessoas que estao passando por isso, e especialmente aos que pude entrar em contato no Brasil e uma pessoa na Bolivia, muita forca e que sigam encarando o tratamento de forma positiva. Como uma amiga dizia, um dia de cada vez.

Beijo,

Carlos

18 April 2010

Hoje é meu aniversario, amanha é o da Bele, e é importante escrever umas linhas para as pessoas que fazem parte da nossa familia. Obrigado a todos pelo apoio e amor demonstrados sempre.

Sei que parece o mesmo discurso trivial, nessas datas falamos em felicidade, amor, paz e saude. Mas nunca essas palavras significaram tanto pra mim, especialmente a ultima, como neste ano. Tambem sempre nessas datas penso como passa rapido o tempo. De certa forma, com tudo que me aconteceu ultimamente, cada aniversario tem um sentido muito especial. Uma comemoracao pelo fato de estar aqui por mais tempo, de poder aproveitar essa segunda chance. Agora ja estou com 36, e lembro que aos 33 pensei que seria meu ultimo aniversario. Agora estou aqui, como num passe de magica, brincando em casa com a Julia, segurando a Tasha dos Backyardigans e um balao do Lazy Town escrevendo essas linhas enquanto ela me chama para pintar no seu livrinho, no dia do meu aniversario. Parece um sonho, mas se for por favor nao me acordem.

Beijos,
Carlos.


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Today is my birthday, tomorrow is Bele’s birthday, so it is important to write few lines for thes ones who are part of our family. Thank you all for your support and love.


I know the usual speech is about hapiness, love, peace and health. These words, especially the last one, mean more than ever to me this year. Birthday are also a way to realize how time flies. For me, with all what happened lately, each special day hás a real meaning. A day to celebrate that I am here for longer, able to enjoy this second chance. I am 36 now, and I remember that at 33, I though this was going to be my last birthday. And now here I am, at home with Julia, writing those lines while she is calling me to play with her, on my birthday. It looks like a dream, but if it is, please don’t wake me up.


Love,

Carlos.


05 April 2010

Feliz Pascoa !



Queria desejar pra todos nossos amigos uma feliz pascoa, e desejar a todo mundo muita felicidade, equilibrio e saude.
Beijos!


01 April 2010

Acabei de receber o resultado das tomografias. Por uma sequencia de conicidencias, o laudo do exame dizia que tinham nodulos presentes nos pulmoes, mas que nao eram conclusivos. Logicamente foi o suficiente para me deixar sem o chao novamente. Correria pra ca, pra la, mil ligacoes... Como sempre, nessas horas meus medicos de plantao, que sao muitos, nao atendem o telefone. Ai a angustia aumenta.


Eh dificil descrever como isso eh angustiante, mas de alguma forma desenvolvi um “botao” dentro de mim que consegue desligar isso e seguir normalmente.


Finalmente consegui falar com meu medico, quem falou com o radiologista e chegaram a conclusao que era somente uma ma interpretacao da imagem, que eram cicatrizes anteriores. Ao analisarem novamente as imagens realmente concluiram que esta tudo bem.

Enfim, sigo bem e cada vez mais perto da linha de chegada.


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I just received the results of the tomography. For some reasons, the report showed that there were nodules in the lungs, but that wasn’t conclusive. It was obviously sufficient to make me feel devastated. We ran here and there, had thousand of phonecalls... Like usual, my regular doctors (and they are many), don’t answer the phone. And the anguish increases.


It is hard to describe how this is distressful, but somehow I managed to press the “off” button and go on. I could finally reach my doctor, who spoke to the radiologist and they concluded it was only a bad interpretation of the image, propably scars from previous surgery. Then they analyzed it again, and concluded everything was fine.


So I am OK and always closer to the final crossing line.

18 March 2010

Estou indo pro aeroporto. Tenho uma sensacao estranha, uma certa angustia. Vou pro Mexico, a ultima vez que fui faz um ano, e foi onde tive uma crise aguda e ao voltar as pressas descobriram o tumor no cerebro. Preciso realmente estar fazendo isso? Vale a pena o sacrifico, trabalhar e ficar longe uma semana? Venho viajando cada vez mais, mas essa vez fiquei muito ansioso. Ando com uma dor nas costas, que creio seja alguma lesao muscular. De novo, dor nas costas, eu nao querendo parar. Ja vi este filme antes.


As vezes nos mesmos criamos as angustias, por uma recompensa muito pequena comparada ao dano que nos faz.


Os problemas do trabalho tem me deixado muito nervoso, e novamente comeco a acordar pensando na lista de assuntos a resolver. Antes tinha brigar com o despertador, era como se a cama me agarrasse, agora eu nao consigo ficar nela. Hoje tive um dia terrivel, com mil problemas. Mesmo assim nao deixo de sair dessa loucura e entrar no mundo da Julia. Brinquei um pouco e a levei pra escolinha, e ao ve-la chorar ao se despedir de mim, tudo fica tao obvio. Ela estando bem, o resto eh tao pequeno. Eh tudo tao simples, ela da razao a tudo isto.


Beijos,

Carlos.


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I am going to the airport. I have a strange feeling, anguish. I am on my way to Mexico. Last time I went there was one year ago. There, I had a crisis and I discovered I had a brain tumor when I got back. Why am I doing that? Is it worth it? To work and stay away from home for 1 week? I have been traveling more and more, but this time I felt anxious. Lately, I have a backache, which I think is a muscle injury. Again, a backache, and myself not wanting to stop. Sounds familiar…


Sometimes we create our anguish, for a very small reward compared to the damage it brings.


Problems of work left me very anxious lately. I am waking up at night thinking about the things I need to do. Before, I couldn’t get up, it seemed the bed couldn’t let me go. Now I can’t stay in it. Today I had a terrible day, full of problem. So I tried to go out of this crazy world and go into Julia’s one. I played with her, brought her to school. When she cried to say goodbye, everything suddenly seemed clear. If she is fine, everything else is small. It is simple, and she gives a reason to everything.


Love,

Carlos.


04 March 2010


Hoje finalmente visitei o hospital novamente, dando inicio ao meu proposito de falar com as pessoas que estao fazendo tratamento e gostariam de conversar comigo. Esse foi um conselho da minha querida amiga Dri, quando eu nao sabia como ajudar as pessoas, ela me sugeriu que a melhor coisa a fazer era doar meu tempo e minha dedicacao. Entao foi o que fiz hoje. Logico que as coisas nao sao tao simples como imaginava, ou seja, chegar no hospital e entrar de quarto em quarto visitando pacientes. Depois do aval do meu medico, precisei falar com a enfermeira chefe e entao ela falaria com as psicologas para avaliar a ideia, a qual ela gostou muito e inclusive era parte de um projeto que eles tinham mas ate entao nao concretizado. De todas formas foi otimo para reencontrar os enfermeiros que tanto cuidaram de mim e continuam cuidando e protagonizando historias de sofrimento e angustia, sem deixar que falte um sorriso no rosto.


Por outro lado, a experiencia de visitar o hospital pra mim eh muito mais profunda e complexa. Um paradoxo. Eh incrivel como um lugar pode trazer lembrancas que minha memoria tinha se encarregado de alocar num canto onde nao pudesse acessal-las facilmente. Foi como mexer num enxame de abelhas, sendo que as abelhas nesse caso sao meus pensamentos, medos, lembrancas. Tudo vem a tona, como se num instante me transportasse a um mundo paralelo, que sim existe, mas que minha consciencia nao quer ver ou ouvir. Ao sair de la, apesar de um pouco confuso, me senti leve e feliz. Uma sensacao maravilhosa de estar la por minha propria escolha, a escolha de usar o tempo que ganhei quase por milagre para dividi-lo com gente que participou dessa historia.


Beijos,

Carlos.


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Today I finally went to the hospital again, to talk to people who are undergoing a treatment and who would like to talk. This was the advice of my dear friend Dri, when I didn’t know how to help people, she told me the best thing I could do is giving my time and dedication to people. That’s what I did today. Of course this wasn’t as easy as I thought, going to the hospital and just enter into the patient’s rooms. After my doctor’s agreement, I had to talk to the chief nurse and then she spoke with the pychologist to evaluate the idea. They really liked it, as it was something they wanted to do for a long time but never did. It was good to see the nurses who took care, taking care of toehr people, always with a smile on the face.


On the other side, this experience is very deep and complex. A paradox. It’s crazy how some place can bring back feelings that your memory had hidden somewhere, in some non accessible place. It’s like trying to disturb a swarm, with the bees being my thought, my fears, my memory. Everything comes afloat, as if it takes me to some parallel world, an unconscious world that I don’t want to hear or see. When I came out of the hospital, even if confused, I I felt happy and light. It is a wonderful feeling to be there on my own decision, and to decide to use the extra time I have to share it with people envolved with this story.


Love,

Carlos.